“Vamos falar sobre o luto?”

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Enterrar alguém especial é, sem dúvidas, a pior coisa da vida. Nós nunca sabemos exatamente como reagir quando o telefone toca e te avisam que aquela vida tão especial agora só existe dentro de você. Ver o corpo frio exposto a olhares que te confortam, mas que insistem em medir a sua dor. É muito confuso voltar para a casa e encarar o lugar vazio no sofá, na mesa, na cama. Aquele contato no celular que não vai mais te ligar.

Quando minha mãe me avisou que o meu avô havia se cansado de continuar lutando contra o câncer e eu tive que contar isso para a minha avó, com quem ele era casado há quase 50 anos, eu me senti a pessoa mais triste do mundo. Parecia que nada mais na vida poderia ser tão ruim do que receber e dar essa notícia.

Fizemos tudo o que era possível ser feito, mas gostaríamos muito de proporcionar uma passagem confortável ao meu avô e por acreditar que conseguimos meu coração vive mais tranquilo. Eu sempre tive muitas lembranças boas dele, mas meu objetivo nessa maratona hospital-trabalho-faculdade-hospital era fazer com que o meu avô nunca se esquecesse o quanto eu me importava. Eu me arrumei para o seu velório: coloquei a roupa que mais gosto, fiz escova no cabelo e usei meu inseparável batom vermelho. Era o nosso último encontro, um dia muito importante na nossa relação.

É claro que durante o velório eu não queria dar atenção a ninguém, se pudesse pediria até para que as pessoas nem falassem comigo. Eu poderia ficar todas aquelas 14 horas o velando em silêncio. Algumas vezes tive vontade de pedir para todas aquelas pessoas saírem da sala e deixar a família sozinha, mas seria injusto porque meu avô foi a pessoa mais encantadora e simples que conheci e as pessoas também o admiravam muito.

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Meus colegas do trabalho, parentes distantes, amigos que não via há anos e os meus melhores amigos estiveram comigo. Mesmo querendo ficar sozinha, meu coração se alegrava ao ver um rosto conhecido compadecido com a minha dor. No entanto, é verdade quando dizem que alguns dias depois as pessoas vão embora e o luto fica.

Por muito tempo eu me senti muito triste, mas tendo que encarar todas as responsabilidades da vida de peito aberto e sorriso nos lábios. Quando as pessoas voltam a viver as suas vidas um silêncio ensurdecedor invade os ambientes. A cadeira de área que meu avô passava as tarde, o sofá onde via suas novelas, o chapéu que ele adorava usar. Toda essa ausência pesa muito mais do que somos capazes de carregar.

Hoje consigo lidar bem com tanta saudade. Converso em pensamentos com o meu avô, sonho com ele e estamos sempre conectando as nossas almas. Gosto quando as pessoas falam dele, quando encontro com o seu melhor amigo e ele diz “E seu avô, ligou?”, como se ele ainda estivesse vivo, e eu respondo “Às vezes ele liga. Mandou um abraço para você!” e ficamos felizes por ele existir em nós.

São seis meses desde que meu avô faleceu e outro dia li no Facebook de uma amiga, que perdeu o esposo recentemente, dizendo que seu luto não tem prazo de validade. A definição de luto nos dicionários é “sentimento de tristeza profunda pela morte de alguém” e isso não tem fim.

O que diferencia a relação com o luto é como você lida com ele. Eu escrevo e sempre que tenho vontade converso com o meu namorado sobre a saudade que eu sinto do meu avô. Há diversas formas de lidar com o luto e você sempre acaba encontrando aquela que é melhor para você.

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Para discutir um assunto tão pouco falado, como a morte, o projeto “Vamos falar sobre o luto?” é super especial. Não me lembro exatamente como conheci o site do projeto, mas foi logo depois que meu avô faleceu e desde então leio todas as histórias que eles publicam. Me emociono e vejo que a dor não cessa, realmente, e é importante que consigamos vivê-la sem culpa.

O projeto “Vamos falar sobre o luto?” surgiu há dois anos com um grupo de amigas que gostariam de discutir o luto para vivê-lo melhor e para ajudar outros amigos.  No site há indicação de grupos de apoio e terapia do luto, histórias para te inspirar e ajudar a viver o luto, também há uma área onde você pode enviar a sua história. Eu adoro ler as histórias inspiradoras, mas outra área do site que também é muito legal é a “Quero ajudar”, onde há textos de como a empresa pode ajudar no luto de um funcionário, como falar de morte com crianças e como ajudar algum colega em luto.

Todo mundo já perdeu alguém especial. Essa é a minha história. Você quer contar a sua?  Fique à vontade nos comentários ou envie sua história ao projeto

Veja textos que escrevi enquanto meu avô lutava contra o câncer e no começo do meu luto:

10/10/2015 – Sobre carinho e respeito
15/11/2015 – <3 Vô Bastião
01/12/2015 – Viver no mundo da saudade

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