Recomeços

escritora

O dia começou a anoitecer e meu coração bateu acelerado. A Maju, minha maquiadora, havia acabado de me deixar mais linda para aquela noite tão especial. Publicar um livro era um sonho de infância, então, aquela noite de autógrafos tinha tudo para ser um dos dias mais felizes da minha vida. Meu editor ligou e avisou que a livraria estava lotada de pessoas me esperando, o que deixou ainda mais nervosa. Minha família e meus amigos, tantas pessoas que sonharam esse dia comigo.

Minha mãe escolheu o vestido que usei, um verde de um ombro só, mesmo eu querendo muito usar aquele pretinho básico com pregas na cintura que tenho há tantos anos e que eu adoro. Fiquei indecisa e, olha que engraçado, na noite de lançamento do meu livro, consegui me preocupar com o vestido. Insisti no meu favorito, dei alguns pulinhos, minha mãe me mandou prender a respiração para tentar fechá-lo e fui vencida pelos 8kg que adquiri desde que usei aquele vestido pela última vez. Não reclamo, afinal, metade é massa magra e a outra metade foi em bons restaurantes mesmo.

Ainda me lembro bem: há um ano eu estava muito feliz, já que a editora finalmente havia comprado a ideia do livro. Chamei meu noivo para jantar e comemorar, mas enquanto tomávamos o café antes de irmos embora, ele me disse que nossa relação não tinha mais sentido para ele. Foram seis anos de namoro e três meses de noivado, nós nos casaríamos seis meses atrás. Minha vida saiu do eixo e pensei até em desistir do livro. Fiquei com o dinheiro que já havíamos investido no casamento e gastei tudo viajando um mês pela Europa. Não pude viver um ano sabático como a Elizabeth Gilbert, do livro “Comer, amar e rezar”, mas, pelo menos, fui sofrer na Inglaterra.

Devo confessar que terminei meu livro, fiz mais algumas viagens, conheci alguns caras bacanas e mesmo assim queria meu noivo de volta. Sou escritora, não gosto de histórias que terminam sem nexo. Eu liguei para o seu celular um milhão de vezes em um ano, soube que ele se mudou de país e foi fazer mestrado em Arquitetura na Espanha. Meus amigos dizem que minha vida precisa acontecer também e eu estou publicando um livro, feliz da vida, mas só eu sei o quanto foi penoso esse processo sem alguém que eu tanto amei ao lado.

Agora, quando insisti em usar o meu vestido preto de novo, percebi que muitas vezes o passado é como o meu vestido preferido: eu gosto muito, vivi momentos muito importantes com ele, mas hoje ele não faz mais nenhum sentido na minha vida. E pensando, ainda bem que as histórias tem um fim, mesmo que não faça não muito sentido na hora, mesmo que seja sofrido. Se não fosse assim não haveriam outros livros, outras histórias, outros amores, outros vestidos.

Meu motorista chegou e meus convidados estão esperando. Que comece a minha noite dos sonhos!

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