Crítica do filme “O quarto poder”

O filme “O Quarto Poder” representa o quanto princípios jornalísticos, como a apuração da notícia e a ética, são fundamentais para atingir o objetivo central do jornalismo de ser uma prestação de serviços à população.

Quando Max Brackett, jornalista interpretado por Dustin Hoffman, se vê diante do desespero de Sam, um ex-funcionário do Museu de Madeline na California, por perder seu emprego, ele deveria ter apurado a notícia. Max não havia entendido os motivos pelos quais Sam estava armado e ameaçando a dona do Museu, mas, ainda assim, manteve contato com a televisão por telefone para dar o furo de reportagem.

A pressa pelo furo não se restringe à ficção, já que na “vida real” faz com que jornalistas ignorem a importância da apuração da notícia distinguindo que é verdade ou não, deixando de analisar também a relevância do fato, o que poderia diferenciar um fato sensacionalista de uma informação. Ao assumir o risco de publicar sem apurar, é possível tornar os inocentes em culpados e, por isso, é interessante ressaltar que o papel da mídia, teoricamente, não é de julgar os fatos, apenas torná-los público.

capa filme

Quando Max Breckett, descoberto por Sam escondido no Museu, se incorporou ao cenário da notícia ele pode perceber que havia criado um espetáculo que levou a grandes proporções a uma situação que poderia ser facilmente solucionada e não precisaria ser noticiada, tendo consciência de que isso mudou o rumo da história. Sam ficou confuso e com tantos holofotes, ficou com medo de ser preso. Max se aproveitou de sua inocência para tentar, em vão, mudar o final da história.

Max queria se consolidar como um jornalista do canal de TV principal e acreditava que mesmo com o país inteiro já condenando Sam, era possível torná-lo num herói e mais uma vez manipulou a história na tentativa de recuperar a sua essência. A população se comoveu e se convenceu de que Sam era apenas mais um pobre desempregado desesperado que não queria nada além de seu emprego de volta.

No entanto, o circo já estava formado e não foi possível controlar o espetáculo. Max apurou a notícia tarde demais e transformou um desempregado em vilão. Vendo as consequências catastróficas que o espetáculo traria para a vida de Sam, tentou recuperar a ética e mostrar a verdade ao público. Tarde demais.

Na vida real, a falta de apuração da noticia também já destruiu vidas. Em março de 1994 os donos da Escola Base em São Paulo foram acusados de abusar sexualmente de seus alunos. Através dos noticiários, toda a população e inclusive a polícia foi manipulada a condenar os donos antes da conclusão da investigação. Os donos da Escola Base nunca mais conseguiram reerguer suas vidas. O processo foi arquivado por falta de provas e ficou conhecido um dos maiores erros da mídia brasileira.

Assim como na história dos donos da Escola Base em São Paulo, o ex-funcionário do Museu, Sam se tornou apenas mais um produto da mídia, sabendo que sua vida nunca mais seria a mesma. Ele só queria o seu emprego de volta.

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